Ilhéus (BA), 28 de janeiro de 2026 – Cerca de dois mil produtores rurais da Bahia saíram às ruas de Ilhéus na manhã desta quarta-feira para protestar contra a importação de cacau africano e a consequente desvalorização da commodity no mercado nacional. O ato, considerado um dos maiores já realizados pela cadeia produtiva do cacau no sul da Bahia, foi organizado em frente à Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), ponto estratégico de chegada das amêndoas importadas.
O movimento reuniu caravanas de agricultores de mais de 20 municípios, incluindo caravanas de Ipiaú, Gandu, Uruçuca, Nova Ibiá, Itacaré, e outras regiões onde a cacauicultura é base econômica.
Contexto da luta e cronologia recente
A preocupação dos produtores intensificou-se nos últimos meses com a chegada de grandes volumes de cacau importado de países africanos, que tem provocado forte impacto sobre os preços pagos no mercado interno. Conforme relatos de lideranças e análises setoriais, a arroba do cacau que chegou a ser negociada em níveis superiores a R$ 1.200,00 durante 2024 despencou para cerca de R$ 200,00 nesta semana, um cenário de queda acentuada que ameaça a sobrevivência econômica de pequenos e médios produtores.
A crise atual está diretamente relacionada ao regime de importação, regulamentado pela Instrução Normativa nº 125/2021, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que flexibilizou critérios de defesa fitossanitária e simplificou o ingresso de amêndoas no país — medida que vem sendo criticada por diversas entidades do setor.
Lutas anteriores e mobilização permanente
A resistência dos produtores contra a importação não é nova. Desde 2012, quando cargas de cacau africano já haviam chegado ao Porto de Ilhéus com registro de pragas, movimentos de agricultores e entidades representativas vêm articulando ações em defesa da proteção à produção nacional.
Nos últimos anos, articulações pela revogação da IN 125 ganharam força com o apoio de parlamentares, lideranças regionais e setores técnicos. Ao mesmo tempo, a Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC), presidida por Vanuza Barroso, tem sido voz ativa nas cobranças e alertas sobre os efeitos negativos da importação e do deságio provocado pelo ingresso do cacau estrangeiro no mercado interno.
Em nota anterior, a ANPC já havia destacado que o deságio — a diferença entre o preço praticado pela indústria e os valores que seriam justos de mercado — e os regimes fiscais aplicados ao cacau importado prejudicam profundamente a remuneração dos produtores, além de criar risco fitossanitário para as lavouras brasileiras.
Falas e posicionamentos durante a manifestação
Entre as lideranças que se pronunciaram, Aguido Muniz, diretor do Sindicato dos Produtores Rurais de Uruçuca e mobilizador do grupo Movimento SOS Cacau, ressaltou a importância da união do setor. Para ele, a iniciativa do sindicato de Tancredo Neves foi essencial para idealizar e articular o protesto, que ganha corpo com apoio de agricultores de toda a Bahia. “Somos povos do cacau, unidos por sua valorização e por um preço que garanta dignidade e futuro à nossa produção,” declarou Muniz em discurso durante o ato.
O produtor Gilvan Barbosa, de Ipiaú, também deixou sua sonora destacando a relevância da manifestação: “É fundamental que a nossa voz seja ouvida por quem pode decidir. Estamos aqui lutando pela valorização do cacau brasileiro e pelo reconhecimento do nosso trabalho.”
A produtora Isabel Cristina, de Gandu, cobrou ações concretas dos prefeitos municipais e autoridades políticas: “Que este ato não fique apenas como mais uma expressão de indignação, mas que resulte em soluções reais para o setor.”
De Rio de Contas, o vice-presidente da UNAGRO e representante da COOPAIBI, João Mateus, reforçou a necessidade de políticas públicas que garantam segurança econômica ao produtor: “Sem preço justo, sem políticas que regulem a importação e protejam a nossa produção, caminhamos para o esvaziamento das lavouras tradicionais.”
Reivindicações e perspectivas
Os manifestantes apresentaram uma pauta que inclui:
Revogação ou alteração da Instrução Normativa 125/2021, para reforçar critérios fitossanitários e controle de importação;
Políticas de proteção ao cacau nacional, com mecanismos de valorização do produtor;
Regulamentação do regime de drawback e incentivos fiscais que não prejudiquem a produção interna;
Diálogo com o governo federal, senado e deputados para construir soluções estruturais ao setor.
O movimento deixou claro que a crise é sentida em toda a cadeia produtiva, afetando não só o agricultor, mas também o comércio local, serviços e a economia regional. A mobilização promete seguir com novas ações até que sejam apresentadas respostas concretas das autoridades competentes.

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